Ratos e urubus, larguem a minha fantasia

Uma polêmica no início do ano agitou o carnaval carioca e teve repercussão nacional, afinal tudo o que envolve as escolas de samba cariocas interessa a todos os brasileiros. O enredo “Xingu – o clamor que vem da floresta”, da Imperatriz Leopoldinense incomodou o setor do agronegócio, gerando uma certa revolta. Segundo o setor, o enredo ataca o agronegócio, causando prejuízos à sua imagem. A escola divulgou uma nota, assinada pelo seu presidente, Luizinho Drummond na qual faz a defesa do enredo, já Cahê Rodrigues, o carnavalesco respondeu na rede social que a Imperatriz teve uma razão muito forte para levar o Xingu para a avenida, a mensagem primordial do enredo seria: “respeitem o nosso índio e aprendam com eles a amar o Brasil”. Ambos alegam que não quiseram ofender ninguém, apenas defender o que ainda resta da população e da cultura indígena.

Polêmica no carnaval não é nenhuma novidade, principalmente em se tratando de grandes escolas do Rio de Janeiro, na realidade, este caso mais recente que envolve uma das mais expressivas escolas cariocas e um setor da economia polêmico por si só, significa apenas que o carnaval revive os seus melhores momentos, participando ativamente dos problemas que envolvem a sociedade, propondo discussão em torno de temas importantes. O fato é que o carnaval se renova de tempos em tempos e se recria, sempre, até para não correr o risco de acabar.

Em 1989, Joãosinho Trinta, na época na Beija-Flor, autor de enredos antológicos que culminaram em desfiles inesquecíveis, criou uma obra-prima com o título de “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, na qual propôs um desfile revolucionário, diferente de tudo o que o público havia visto antes. O carnavalesco, que também ficou célebre por uma frase em que rebatia críticas, dizendo que intelectual é que gosta de pobreza, pobre gosta de luxo, desprezou o brilho fácil e colocou na avenida uma turba de excluídos, mendigos, desocupados, entre outros menos favorecidos pelo destino, em tons de sépia, lembrando sujeira e desolação. Um carro alegórico com o Cristo Redentor foi proibido, pela Arquidiocese do Rio, de desfilar. A saída, genial, foi cobrir a estátua com plástico preto, que lembrava lixo e colocar uma faixa com os dizeres: “Mesmo proibido, olhai por nós!”. A Beija-Flor não ganhou o carnaval, por obra de um jurado que lhe tirou pontos importantes, ficou em segundo lugar, mas quem viu aquele desfile certamente nunca esqueceu. E a história do carnaval reserva a ele um lugar de destaque, talvez o desfile mais impressionante de todos os tempos.

O Xingu e os índios já foram assuntos no enredo “Como era verde o meu Xingu”, por Fernando Pinto, na Mocidade Independente, em 1983. Fernando Pinto criou desfiles ousados e revolucionários, entre eles “Tupinicópolis”, de 1987, em que imagina uma cidade toda controlada e habitada por índios e, dois anos antes, o melhor de todos, “Ziriguidum, um carnaval nas estrelas”, em que colocou baianas vestidas de astronautas e umas formigas gigantes, entre outras fantasias e alegorias futuristas, com toques da tropicália que ele tanto prezava e fazia parte de seu originalíssimo estilo. Infelizmente, ele morreu precocemente num acidente de automóvel na Avenida Brasil.

Mas o carnaval, assim como o samba e as marchas que o eternizam, não morre, ainda que passe por momentos de baixa criatividade e pouca imaginação. Durante algum tempo, as escolas optaram por enredos patrocinados, uma prática não se revelou muito interessante, em que empresas, instituições, produtos e até estados e países pagavam uma quantia para serem exaltados na avenida. Aos poucos, a febre foi passando e o que se vê hoje são as escolas de samba voltando para as suas comunidades, razão primordial da existência delas.

Seria curioso imaginar uma empresa dedetizadora patrocinando um enredo de carnaval. O pobre carnavalesco precisaria de extraordinária criatividade para desenhar fantasias de cupins gigantes, baratas voadoras e outros insetos, além de carros alegóricos com tubulações e tatuzões desentupidores de ralos e outros equipamentos que não têm muito a ver com a festa. Pensando bem, é melhor ficar com o Xingu, os índios e o Ziriguidum de sempre, ainda que isso cause alguma saudável polêmica de vez em quando. Bom carnaval a todos!