Predadores

Tudo na natureza segue uma regulamentação própria, que mantém o equilíbrio da flora e da fauna. Mesmo os animais mais ferozes e os insetos ou bichos mais repugnantes têm alguma função no equilíbrio natural. Menos os cupins!

Eles parecem não ter nenhuma outra coisa a fazer a não ser devorar tudo o que aparece pela frente. Segundo a imaginação popular, o cupim devora tudo, só não come aço, mas isso não é verdade, eles caminham pelas fendas e frestas das paredes e se alimentam basicamente de celulose, que se encontra em madeira, papel ou tecido. Mas não atacam ninguém, nem contribuem de forma alguma para o equilíbrio do quer que seja.

Pelo contrário, causam desequilíbrio ao comer mais um lado do batente do que outro ou ao dar preferência a um dos pés da mesa, além de desbastados, pés e batentes ficam desalinhados e a queda pode ser inevitável, para qualquer lado.

Predadores e presas se estendem pelos continentes, nos campos e nas cidades, em todos os ambientes, incluindo rios e mares.

O tucunaré, peixe amazônico, bom para pesca, transportado do seu habitat natural para outros rios, no Paraná e Mato Grosso, trouxe um resultado desastroso para o equilíbrio da vida dentro desses rios, embora pudesse ser bom para os pescadores. Carnívoro, o tucunaré passou de caça a caçador, comendo os peixes pequenos que habitavam naturalmente esses lugares. Há inúmeros exemplos deste tipo de comportamento na natureza.

No ambiente urbano, mesmo os ratos contribuem com a manutenção do equilíbrio caçando as baratas, uma relação estranha, um bicho asqueroso que possui seu lado positivo, dizimando a população de outros peçonhentos. O predador natural dos ratos eram os gatos, antes de se tornarem uma espécie de membro honorário da família. Os gatos de antigamente saíam à caça dos ratos ou de uma fêmea e ficavam desaparecidos por semanas, às vezes meses. Voltavam todo estropiados, mas com a carinha feliz de quem teve o dever cumprido.

Hoje em dia, o máximo que eles fazem é pular da cama no chão e vice-versa. Mas os ratos se limitam aos subterrâneos e, a menos que alguém vá incomodá-lo, não saem para nos perturbar, embora tenhamos também o rato de telhado, que não sabemos por quê, resolveu habitar as alturas, talvez por se achar um morcego ou querer ser um pardal. Mas eles são em menor número e mais fáceis de controlar.

No final dos anos 1950, Negrão de Lima era prefeito do Rio de Janeiro e um assessor veio lhe informar que, segundo um levantamento, havia 3,5 milhões de ratos na cidade. Ele exclamou: “Espantoso!”. O assessor quis saber se era espantosa a quantidade de ratos e ele respondeu: “Não, quem contou os ratos, como conseguiu?”.

No capítulo maravilhas da natureza o cupim pratica uma outra espécie de regra para a sobrevivência, o mutualismo obrigatório, ou simbiose, no qual um organismo depende do outro para a sobrevivência, no caso os protozoários que vivem no aparelho digestivo do cupim. Parece complicado, mas não é, o cupim, ao se alimentar, apenas ingere a madeira e o protozoário é quem a digere, realimentando o cupim. O cupim, quem diria, embora por necessidade, socializa seu próprio alimento.

Os predadores naturais do cupim são o tamanduá e a formiga, mas não parece muito legal ter um tamanduá em casa para acabar com eles e nem criar uma colônia de formigas para dar conta do recado, o problema com as formigas seria maior.

Mas pior do que o cupim, que destrói a madeira aparentemente apenas para se alimentar, só mesmo o homem, o mais cruel dos predadores, pois enquanto insetos e animais em geral caçam para sua própria sobrevivência, o ser humano age movido apenas por vaidade ou qualquer outra razão inexplicável, sem se importar com o que pode acontecer com o meio ambiente.

Para causar a destruição e o desmatamento descontrolado que o homem conseguiu em tão pouco tempo, seria necessário um número incalculável de cupins, tão impossível de se reunir quanto os ratos do Rio de Janeiro, que espantaram Negrão de Lima.